Acho que acontece pra todo mundo, em maior ou menor escala, com poucas ou muitas pessoas do convívio: a gente se vê, de repente, abandonando, deixando pra trás o que e quem já foi tão imprescindível.
É como um desvio – a gente não sabe bem em que parte da história: só sabe que então cruzou outra estrada, pegou outra ponte e foi aportar em outro lugar.
Não deixou de amar ninguém, só juntou tudo no poço da lembrança, naquele lugar onde nada muda, que não mais interfere nem sobrevive.
Eu sempre tenho muitas saudades de um grande amigo do colégio: Vitor, foi uma das pessoas mais queridas, o mais irmão, uma das pessoas mais especiais que tive o prazer de ter ao meu lado, como companheiro de tardes no telefone, de almoço, de volta pra casa na chuva, ficante, professor particular das matérias que eu não sabia . Mas um dia, sem mais nem menos, nós, que caminhávamos sempre tão juntos, pegamos atalhos paralelos. Nem percebemos imediatamente – e acho que cada uma se deu conta da ruptura em tempo diferente. Foi nove anos depois que trocamos dois e-mails – e teria sido melhor que isso não tivesse acontecido nunca. Não éramos mais os mesmos, nem falávamos a mesma linguagem. Mudaran-se os rumos, reconstruímos as coisas de outra forma e nem havia muito pra contar – porque tinha um medo de ser mal interpretada e não havia intimidade pra explicar.
Também nessas ocasiões tem um frio que nos acolhe: aquela névoa quase imperceptível, mas que a gente sabe que está ali, encobrindo nossa decepção, o desencanto, uma dorzinha estranha de se saber livre de um vínculo que tanto se quis preservar… Tanto porque às vezes as pessoas fazem de tudo para que não venhamos a querer elas por perto…
A palavra, uma vez dita, é palavra ouvida… não pode ser esquecida em um curto espaço de tempo… Mais quem são essas pessoas? Vítimas de um fracasso pessoal? Pena!
Mudamos nós ou é o tempo que modifica tudo ao redor?
Dia desses andei percebendo que minha memória, sempre fotográfica, anda falhando. É uma coisa ou outra que não lembro, um dia especial que se apagou, um rosto que eu queria tão bem que vai desaparecendo. Bom é que algumas coisas ruins também vão se misturando e se perdendo; mas é sempre o que mais se queria guardar que nos espanta de estar se diluindo.
Talvez já não haja em nós tanto espaço para recordações… Talvez a gente aprenda a dar atenção só ao que realmente importa; talvez assim a dor seja menor, porque já nos magoamos tanto que o coração acostumou (e isso, também pode ser terrível, um sinal de que a sensibilidade amorteceu).
Seja como for, acho que quem continua junto, quem luta contra os problemas, brigas, possíveis falhas de caráter ou encontra uma maneira de manter algum contato qualquer, mesmo que estreito, é porque, de alguma inexplicável maneira, enxerga a beleza com as mesmas cores – mesmo quando tanta coisa mudou, dentro e fora de nós. Pode sair um pouco do foco, mas não a ponto de perder a nitidez.
E, de certa forma, isso nos salva. O contrário, é destruir totalmente o contato com o passado, com tudo que se viveu, e dividir os tempos como se houvesse em nós vidas totalmente separadas, que nunca se juntam.
E acho que é impossível viver só com o ‘novo’: o ‘velho’ é parte de nós, soma do que nos transformamos, e é necessário, também, pra gente não se perder de quem é…
Permanecer é uma coisa boa, acredito eu, mesmo tendo certeza de que a gente quase sempre pemanece por menos tempo do que gostaria.